Quando o dia parece querer tornar-me um bloco de gelo , imerso em dúvidas, contradições e lamentos, chego a casa.
Oiço o meu menino chamar: -Mamã?
Corre meio sem jeito e pára nos meus braços. Corre de novo para o seu mundinho e olha para trás para ter a certeza que não me perdeu entretanto.
Senta-se no chão e espera que me sente também. Quer fazer uma corrida de carros. Vrumm vrummm… está deliciado com os sons que vão surgindo da brincadeira.
Mamã- chama novamente quando pareço distraída. Precisa de mim, o olhar sincero não deixa dúvidas.
Levanta-se de rompante para ir buscar outro brinquedo, sim, porque a corrida terminou, já não tem graça. Antes de sair do quarto volta-se, sorri e vem dar-me um abraço apertado, como se estivesse desculpando-se pelo seu ímpeto.
À noite, quando o soninho se atreve a lutar contra a vontade de mergulhar na fantasia, rebola-se nos cobertores, deita a cabeça suavemente e dá-me a mão. Sabe que estou ali e permanecerei, mesmo quando adormecer. Sente-se seguro. Sinto-me segura. Encosto também eu a cabeça à sua pequena figura .Afaga-me o cabelo, com os seus dedinhos mágicos de criança.
O meu bloco de gelo não existe mais. Não há dúvidas ou pensamentos contraditórios, não há lugar para lamentos ou divagações sobre a vida lá fora, porque sou eu o meu filho, o meu mundinho cor-de-rosa e o seu mundinho azul , que cada um criou e que se unem pela razão mais natural da vida: o amor.
Quando não estás , estás em mim, quando estás comigo sou verdadeiramente feliz.
(Ao menino mais doce do mundo)
Hoje estou a precisar de uma história bonita, com tranças reluzentes e laçarote vermelho, brilhante, debruado a gargalhadas.
Uma história com idas e voltas, ondas e e calmaria. Com personagens aventureiras, introvertidas e pacatas, sonhadoras e desconcertantes. Personagens com cores garridas, frases feitos e onomatopeias. O silêncio sou eu….preciso de algo que me confira vida.
Não preciso de uma Cinderela, talvez sim de uma Rapunzel. Não preciso de uma Capuchinho Vermelho, mas talvez de um Peter Pan. Talvez precise mesmo da Galinha Ruiva ou do Macaco do Rabo Cortado ou quem sabe, do Pai Natal e o minúsculo menino. Algo que me faça sonhar.
Espera! Já sei! Preciso da Alice, sim, da Alice no País das Maravilhas. Ó, a Alice…e o Coelho, quero mesmo conhecer o sr. Coelho e conhecer o chapeleiro louco também. Será que me convidam para tomar chá e comemorar o Desaniversário?
É o mundo das Maravilhas… a curiosidade de uma menina… de vestidinho rodado e rendinhas tenras.
A menina sou eu… e agora sou eu que vou deixar-me escorregar e cair… cair… das nuvens para o céu… e vou crescer, para voltar a encolher e vou tomar chá numa chávena de café e vou escolher o chapéu que me devolverá ao meu mundo, de uma forma revivida… e eu vou saber escolher o meu caminho. Obrigada, Alice!
Os dias especiais quase sempre o são porque nele participam pessoas especiais e hoje foi um dia verdadeiramente único.
Reencontrei uma pessoa fantástica, que marcou os meus anos de escola, a minha professora de Português.
Fiquei tão feliz…foi como se por momentos estivesse dentro de uma bola de algodão doce.
A luminosidade que o seu rosto irradia é o mesmo, a expressividade com que conversa é a mesma e a magia que dá às palavras continua lá, por isso foi tão fascinante.
Há momentos na vida em que faz bem quebrarmos a barreira do tempo, esquecermo-nos dos aborrecimentos inerentes à responsabilidade de se ser adulto e sentirmo-nos assim, radiantes porque reencontramos alguém que nos fez sorrir e nos devolveu a capacidade de sonhar, aquela que fomos perdendo pelo caminho, sem saber muito bem como.
Este dia foi equivalente a comer uma tablete gigante de chocolate com pedaços de bolacha, foi como comprar um livro nome e devorar o seu cheiro, as suas palavras totalmente novas em nós…melhor só mesmo quando o Huguinho me abraça e me faz sentir especial.
Agradeço à professora pelos minutos que me concedeu hoje, pela conversa maravilhosa que tivemos e pelo carinho que tem para comigo, que devolvo em triplo, porque se eu voltasse uns anos atrás, faria com certeza uma composição dedicada a si, como sendo a melhor professora do mundo.
Mais do que as palavras, ficam as emoções e ser feliz também é isto, sentir que há alguém que, por momento,s renasce no nosso mundo e o torna muito melhor do que era.

Como ainda sou pequenino
E novo é o meu mundinho
Tento entender o que me envolve
Tento perceber quem eu sou
E oiço os sons que acontecem
Ora se chove ora se faz sol
Na rua, em casa, no jardim da vizinha do lado
Que tem um gato engraçado
Com bigodes cor de algazarra
Com a Flora, olha que farra
Se tornaria a calmaria.
Já sei bem o que é água, bola, e até sei dizer au au
Paiiiii, com toda a garra e pujança
E mamã…com toda a delicadeza.
E sem esquecer a Bia, a estrelinha pacata
Que habita mesmo em frente à minha janela
Tão simpática a estrelinha
Um dia destes vou convidá-la para brincar
Tenho muitas bolas e livros giros
E até tenho carrinhos coloridos
Um cavalinho branco e um jipe para o rebuliço
Porque sou rapaz, ta tudo dito
E tenho bus. Os meus bus, que eu não sei bem bem o que são
Chamam-lhe bus, devem ter a sua razão
Para mim são uns meninos grandes que cuidam de mim
Que brincam comigo e fazem caretas engraçadas
E fazem-me rir tanto que até fica a doer a barriga
Dançam e cantam comigo, pegam-me ao colo e rejubilam
Quando eu chego da casa dos papás.
Mas não faz diferença, sabem
Sei que os bus não são bia, nem rebolam como a bola
Não fazem au au como a Flora
Nem são água como a que ontem vi cair do céu
Mas sei que fico feliz quando os vejo
São assim, um rebuçado sem embrulho, sabem?
E por isso sou bebé corajoso, forte e traquina
Por saber que tenho bus que gostam muito de mim
E só para o caso de serem um bocadinho distraídos…
Também gosto muiiiiiiiiiito de vocês.
---Aos BUS da minha vida---

Era uma vez uma madrinha…
A minha madrinha…
Ela gostava muito de ser actriz
E eu gostava muito que ela fosse
Para dar vida aos dragões das histórias
Às lamparinas encantadas e aos super-heróis.
Daqui a uns tempos, quando já não for trapalhão
E conseguir escutar com atenção
Vou buscar o meu livro preferido
E pedir-lhe carinhosamente: Lês-me esta história, por favor?
E eu sei…
Porque a minha madrinha é como aquelas fadas
Que abrilhantam todos os contos e fábulas,
Vai sentar-me no seu colinho
Dar-me um beijinho na testa e sorrir.
Depois vai deslizar pelas páginas
Imitando os sons vibrantes da história
Colorindo com a expressão cada palavra.
E isto enquanto eu, já em pulgas
Vou soltando uns Ahhh e uns Eiiii
Não querendo que aquele momento acabe.
Fica a certeza de que depois do “ e foram felizes para sempre”
Outro momento como este surgirá.
E outro, e outro, e outro
Porque, não sei se já vos contei…a minha madrinha vai ser actriz.
E também eu vou querer um dia,
Contar-lhe uma história, nem que seja pequenina
A de um menino feliz por ter uma madrinha como ela.
( Do Suguito para a madrinha B)